Proponho a leitura do texto
Para todos aqueles que procuram a Luz que ilumina a Noite
Entre o dia e a noite há um êxtase.
O sol detém-se um instante no limiar do ocaso para olhar o mundo pela derradeira vez. Contemplai e some-se.
Acompanham-no, em cortejo melancólico, as mesmas nuvens que, alegremente, o precedem ao romper d’alva.
De manhã saem contentes como ovelhas que se precipitam álacres mal o pastor abre o redil; à tarde recolhem-se saudosas, em pena de deixar o céu.
O dia apaga-se.
É uma página que se volta para todo o sempre no livro que se não relê.
O que nos fica de cor é a lembrança fixada na saudade.
O sol faz o seu giro e reaparece na manhã seguinte com o mesmo calor e o mesmo brilho; nós acordamos diminuídos, porque deixamos na véspera alguma coisa que nunca mais encontraremos.
Recordar é viver de esmolas, apanhando restos aqui e ali. É o que fazemos pobres de nós!
Batendo humildemente à porta da casa da memória, que é a guardadora das ceifas.
Este livro é feito com apanhaduras respigadas à pressa nos últimos raios do sol da mocidade.
Começa a escurecer. D’ora avante, sem sol, trabalharei à luz da lâmpada.
Vesperal, livro crepuscular, últimas fantasias...
Que saudades da luz e das minhas ilusões!
O sol lá anda pelas antípodas, sinto-lhe ainda o calor, mas sua claridade...
Essa não verei mais, nunca mais!
Coelho Netto
Julho, 1922